Teatro: Les Trois Sœurs (Simon Stone, 2017)

Simon Stone reescreveu as Três Irmãs de Tchekov mas pouco sobrou do autor russo. Três irmãs tentam ser felizes nos tempos de hoje mas o fracasso, sobretudo amoroso, está sempre à espreita. A amargura, a desilusão, garante-lhes um estado de desespero crescente. Uma casa transparente que se move é um grande achado desta produção. Paris 3,5/5

Teatro: Marlène Dietrich - Les Nuits Blanches de l'Ange Bleu (2017)

Marlene Dietrich no seu apartamento parisiense rememora o fio da sua vida, em particular dos muitos homens que conheceu, como um tal de Jean (Gabin?) que a marcou sobremaneira. Esta peça musical (Luana Kim/Dietrich canta em várias línguas) foi escrita e é interpretada por Luana Kim. As canções são o melhor do espetáculo. Paris TNO 2/5

Amores urbanos (Vera Egito, 2016)

Amores urbanos, estreia na realização de Vera Egito, mostra-nos um Brasil pouco visto no cinema. Os protagonistas são três amigos, jovens adultos, que levam uma vida independente dos pais, entre os quais uma lésbica e um gay assumidos. A jovem quer viver a sua vida afetiva às claras forçando as namoradas a um compromisso semelhante. O rapaz gay, pelo contrário, não quer comprometer-se com nenhum dos namorados. A grande amiga de ambos, enganada pelo namorado (estava noivo de outra), encontra-se numa encruzilhada sentimental e profissional. Quase não há cenas no exterior dos seus apartamentos e grande parte das cenas consiste em conversas. Uma primeira obra que promete muito. Paris 3/5

Zoom (Pedro Morelli, 2015)

Zoom é uma produção brasileiro-canadiana que propõe a articulação de três histórias segundo o modelo das bonecas russas. Uma das histórias é protagonizada por Garcia Bernal e é em desenho animado; outra é protagonizada pela estrela brasileira Mariana Ximenes; a terceira por Pil Alison. É este dispositivo original que dá valor ao filme, pois as histórias em si são desinteressantes, cheias de lugares-comuns. Paris 2/5

Vai Que É Mole (J.B. Tanko, 1960)

Estas comédias brasileiras antigas lembram as congéneres portuguesas: nada se salva a não ser os grandes atores carismáticos, que acabam por levar o filme às costas. Em Vai Que É Mole, comédia contemporânea da bossa nova, é um Brasil brejeiro e arcaico que é exposto, com uma história de mal-entendidos à volta de pequenos ladrões que armam a confusão a 100 à hora. Diverti-me a ver agora este filme, como já tinha acontecido da primeira vez que o vi. Como é que um filme tão medíocre me faz passar bons momentos? Porque Grande Otelo e Ankito formam uma dupla irresistível, a que se junta Jô Soares, muito jovem mas já gordinho (chama-se Bolinha) além de outros. Os diálogos por vezes acertam em cheio, mas é o slapstick que mais me encanta nesta comédia. A rever, pois não. TV 3/5

Tudo que Aprendemos Juntos (Sérgio Machado, 2015)

Um jovem professor de música às voltas com uma turma problemática, num território (favela) mais do que problemático. Um filme sobre uma temática social quente, cheio de boas intenções, carente de boas ideias de cinema. Paris 2/5

Mate-me Por Favor (Anita Rocha da Silveira, 2015)

No contexto da cinematografia brasileira esta primeira longa-metragem tem alguma originalidade. Não por incidir sobre adolescentes, mas por enveredar por um thriller sobre um crime pouco abordado no cinema brasileiro: o assassino em série em contexto urbano. No bairro da Tijuca um grupo de adolescentes andam perturbados com a morte de várias jovens em terrenos abandonados perto da escola onde estudam. Mas essas mortes tanto assustam como fascinam as adolescentes, que tentam saber os pormenores do que aconteceu às vítimas. O retrato desta juventude carioca de classe média, média-alta, é impressionante de sugestão. Frívolos, hedónicos, conservadores, transgressores, misteriosos, assim são estes adolescentes que dançam e louvam a Deus ao som do baile funk e da dance music dos anos 80 (será realista este pormenor?). Se refiro a música é porque foi um dos elementos que mais agradaram no filme, que privilegia a música negra em várias das suas vertentes. Esta nova realizadora promete muito. Paris 3,5/5

Elis (Hugo Prata, 2016)

Elis abriu o 19° Festival de Cinema Brasileiro de Paris. Não admira, trata-se de um filme que consagra não só uma grande cantora brasileira mas um mito nacional. Os momentos essenciais da carreira e da vida de Elis Regina estão no filme (mas... e a colaboração extraordinária com Tom Jobim?) e os atores principais (Andreia Horta, Caco Ciocler, Gustavo Machado) asseguram grande credibilidade às cenas. No entanto, Elis é um biopic preguiçoso, escolar, que cumpre o que se espera deste género, mas nada oferece de relevante em termos cinematográficos. Digamos que é um notável cartão de visita do cinema mainstream e industrial brasileiro. Paris Arlequin 3/5

Rio Mumbai (Pedro Sodré e Gabriel Mellin, 2017)

Este filme aposta tudo na história que narra. Mas, para o meu gosto, esta história não tem pés nem cabeça. Um homem entra lentamente num estado de letargia, entrando noutra dimensão temporal que, saber-se-á mais tarde, se relaciona com a leitura que fez na juventude de uns trabalhos de um amigo astrofísico. O protagonista só compreenderá o seu problema quando contactar uma espécie de guru... na India (onde mais poderia ser?). Muito cedo me desinteressei pelo que se passava na tela, já que nem a forma de narrar desperta o mínimo interesse. Paris Arlequin 2/5

São Paulo em Hi-Fi (Lufe Steffen, 2014)

Este documentário é empolgante. São Paulo em Hi-Fi trata da noite gay paulistana entre o final dos anos 60 até ao final dos anos 80. Uma época em que os gays e os transsexuais ganharam visibilidade na sociedade brasileira e foram um dos principais protagonistas da noite. Foi com a explosão das boites e bares gay que a luta pelos direitos da população LGBT começou. A resenha da noite gay nos jornais e nas publicações especializadas abriu o debate sobre a diversidade sexual como até então não tinha ocorrido. O documentário é rico em imagens dos shows nessas boites e os protagonistas eram os travestis. Mas não era apenas o que se passava no interior das boites que contava, até porque muitos não tinham acesso a elas. As casas noturnas atraíam muitas pessoas, heterossexuais mas sobretudo homossexuais, que apenas passavam para ver quem por lá andava e para o engate, obviamente. Há testemunhos impagáveis de humor e todos são na verdade pertinentes. O filme recebeu justamente o prémio do público do Queer Cinema de Lisboa em 2014. Paris Arlequin 4/5