It (Andy Muschietti, 2017)

Todos os anos estream um ou dois filmes de terror que, para além de serem defendidos pela crítica, parecem renovar o interesse do público no género. Este verão It, baseado num romance de Stephen King (1986), arrasou as bilheteiras um pouco por todo o lado. Fui vê-lo na última sessão de domingo, que terminou à meia-noite e meia, e a sala estava cheia, com alguns espectadores a verem o filme no chão. Os filmes de terror proporcionam sempre reações curiosas na plateia, que revelam sobretudo excitação por tudo o que vai passar-no ecran. A sessão de It decorreu com a tensão esperada, fruto de argumento bem construído em torno de um grupo de crianças que resolvem enfrentar os seus medos e vencer o Mal que se apodera regularmente da sua cidade provocando o desaparecimento de crianças. Tudo se passa entre adolescentes, os adultos estão praticamente fora de ação, como se tudo fosse um pesadelo a que é preciso fazer frente para se tornar adulto. Um bom filme, sem dúvida. Paris 3,5/5 

The beguiled (Sofia Coppola, 2017)

Vi os seis filmes que Sofia Coppola realizou até hoje. Gostei de todos, mas nenhum me pareceu uma obra de exceção. The Beguiled é um dos seus melhores, mas não muda a minha apreciação do valor da realizadora. Durante a guerra da Secessão, um grupo de mulheres que habitam sozinhas uma grande casa, acolhe um soldado inimigo (Colin Farrell) que foi encontrado ferido. Tratam-no, temem-no mas são seduzidos por ele. O melhor do filme é a perturbação que Farrell instala entre as mulheres e o facto de entre estas estarem Nicole Kidman, Kirsten Durnst e Elle Fanning. Quanto a Sofia, acabou por receber o prêmio de melhor direção em Cannes. Paris 3,5/5

The Loneliness of the Long Distance Runner (Tony Richardson, 1962)

Mais do que justificada a reposição, em versão restaurada, deste clássico do Free Cinema britânico. Um jovem revoltado contra a opressão que a família, a sociedade e o estado exercem sobre ele, depois de ter cometido um roubo numa padaria, é posto numa escola de correção. Aí será usado pela direção para trazer prestígio à escola através do desporto. Mas é ele quem tem a última palavra. Este filme, como outros do movimento Free Cinema, pôs a classe operária na primeira linha de observação, mas sem a idealizar como o cinema anterior fazia. Os pobres, os excluídos, passam a ser sujeito, e não apenas objeto de interpretação da classe dominante. Que diferença face aos filmes de David Lean, Anthony Asquith ou Noel Coward que marcaram o cinema britânico nos anos 40/50. Paris 4/5

Gauguin - Voyage de Tahiti Edouard Deluc, 2017)

Gauguin - Voyage de Tahiti é um biopic desinspirado do grande pintor. Como o próprio título indica, trata da primeira estadia de Gauguin em Tahiti, o período da sua vida em que passou da miséria em França (a esposa e os filhos abandonaram-no porque ele não os conseguia alimentar) para a miséria em Tahiti (doente, solitário). O filme abusa da exposição da decadência que atingia o pintor, na altura já reconhecido por alguns dos seus pares. E pouco nos diz sobre o seu trabalho e a influência do contexto em que viveu nesses anos sobre a sua arte. Paris 1,5/5

Full Alert (Ringo Lam, 1997)

Full Allert segue um esquema clássico dos policiais de Hong-Kong. Os polícias perseguem um bando de ladrões que pretendem libertar um dos seus que está preso. Mas pouco a pouco o confronto torna-se individual, opondo o chefe da polícia ao preso (Ching Wan Lau, e Francis Ng). As cenas de ação, sobretudo a perseguição de automóveis nas ruas de HK, são ótimas. Paris 2,5/5

Leitura: Gauguin (1989)

Mais um livrinho da coleção Découvertes da Gallimard que me dá a conhecer a vida e a obra de um grande pintor que, como outros da mesma época, passou miséria, fez a família passar miséria, foi incompreendido, abandonou mulher, filhos e amigos para se exilar no país da Arte, para se dedicar integralmente ao trabalho e à concretização de obra genial que mudou a forma de sentirmos o mundo. As cores de Gauguin, as formas de Gauguin, ficam connosco, sobretudo as que o inspiraram a vivência no Tahiti. Venham agora o biopic (já nas salas) e a exposição prevista para este outono parisiense. Vila do Conde 5/5

Bullets over summer (Wilson Yip, 1999)

Bullets Over Summer (1999) é um policial da época de ouro do cinema de Hong-Kong. Dois polícias (Louis Koo e Lai Yiu-Cheung) alugam o apartamento de uma velhota para observar o ninho de bandidos perigosos que se aloja no apartamento do outro lado da rua. Mas o trabalho fica de imediato em segundo plano, pois o centro do filme é uma comédia doméstica deliciosa em que a velhota toma os agentes por seus netos, revela notória preferência por um deles e incita o seu preferido a participar numa reunião de condomínio (onde será eleito o seu líder por unanimidade). Mais déjà vu, os dois agentes formam uma daquela duplas cómicas que vemos em tantos filme de género : um dos agentes tenta impedir o outro de satisfazer os seus desejos sexuais despertados por uma jovem que lhes aparece no apartamento. Um belo exemplar do cinema de Hong-Kong à época. Paris 3,5/5

Leituras: Rubens (Taschen)

Com este precioso livro da Taschen (feito para as massas) fiquei a perceber melhor o que eram os grandes ateliers de onde saíam obras em catadupa assinada por um mestre da moda. E poucos terão havido como Rubens, cujos ateliers formaram grandes pintores e promoveram o trabalho especializado: um pintava flores, outro as formas humanas, outro os animais mortos... Nunca prestei atenção a Rubens, mas agora alguns dos seus quadros fascinam-me. Não se conhecendo o contexto em que foram produzidos, nem imaginamos a ousadia (estética, política) que certos quadros encerram, mas que na superfície (da nossa ignorância) nos parecem académicos e sem vida. Obrigado, Taschen. Vila do Conde 5/5

Wind River (Taylor Sheridan, 2017)

Numa região remota dos EUA, uma jovem aparece morta na neve, e o FBI é chamado para desvendar o crime que esteve na origem de tal morte. Em causa não estão apenas os responsáveis da morte da jovem, mas o mal-estar de toda uma população, traumatizada por um clima impiedoso e sobretudo por uma História sangrenta de repressão (dos índios) que parece marcar o destino dos seus habitantes. Um policial de rara qualidade. Paris Bercy 3,5/5

Musical: Les Misérables (Londres, 2017)

Na minha última incursão a Londres, com a Royal Opera House de férias, aproveitei para ver musicais, género que pouco frequento. Optei por dois dos maiores musicais contemporâneos, que arrastam multidões há anos: The Phantom of the Opera e Les Misérables. Fiquei relativamente indiferente a ambos, isto é, não me entusiasmaram a ponto de querer voltar a vê-los, como sempre me aconteceu quando vi os musicais clássicos que o Châtelet (Paris) apresentou durante anos (42nd Street, An American un Paris, Into the Woods, Singin' in the Rain, etc.). E no entanto The Phantom e Les Misérables já são clássicos contemporâneos, com qualidades indiscutíveis. Como os musicais antigos, Les Misérables tem um gancho na lindíssima I Dreamed à Dream, cuja melodia invade o score. A maquinaria em cena, os cenários, os movimentos dos grupos em cena, tudo concorre para tornar o espetáculo atraente mas não memorável (para mim). Londres 3/5