The Lion in Winter (Anthony Harvey, 1968)

Desde muito jovem que ouço falar deste filme por causa do óscar dado a Katherine Hepburn. Mas nunca o tinha visto. Agora é reposto nas salas em cópia restaurada. Trata-se de um bom filme que mantem as qualidades que foram reconhecidas na altura da estreia. Para começar, um texto muito bom: o original é uma peça consagrada da Broadway, de James Goldman (Oscar), que assina a adaptação da sua peça para o cinema. E há ainda os atores, um festival de atores: Peter O'Toole (Golden Globe), Katharine Hepburn (Oscar e BAFTA), John Castle, Anthony Hopkins. Já há muitas obras (romances, filmes, séries) sobre os dramas familiares da realza britânica e The Lion in Winter é uma dessas obras que ficaram. O único senão para mim é tratar-se de um filme que nunca consegue afastar-se, autonomizar-se da sua origem teatral (acontece o mesmo com o recente Fences), o que acaba por ser limitativo. O filme recebeu sete nomeações para o óscar, tenho ganho três (atriz, argumento e score musical para John Barry). Paris Mac-Mahon 3/5

Christopher Strong (Dorothy Arzner, 1933)

Este é o segundo filme da grande Katherine Hepburn. E ela é já a protagonista, o que não deixa de ser notável. A sua screen persona já está neste filme: mulher independente, forte, auto-suficiente (apresenta-se no início do filme como alguém que nunca teve um amante, que nunca amou), melhor entre os pares, que são todos homens (é uma aviadora em busca do recorde de altitude). Mas o argumento, da consagrada Zoë Akins, mesmo no período pré-código Hays, é particularmente terrível num aspecto: Hepburn apaixona-se por outro ser imaculado, um homem casado e pai exemplar, amigo do seu pai, e fica grávida dele. A solução é a morte, ainda por cima o suicídio enquanto quebra o tão desejado recorde de altitude. Dois ou três anos depois, nada disto poderia surgir num argumento de Hollywood. Hepburn e os sinais dos tempos que o filme expõe são as únicas boas razões para ver o filme. Paris 2,5/5

The Lost City of Z (James Gray, 2016)

O sexto filme realizado por James Gray é uma maravilha. Trata-se do meu filme preferido do realizador. Gray escreveu o argumento desta história baseada na vida do explorador britânico Percy Fawcett, que dirigiu várias expedições à Amazónia para encontrar uma civilização que ele acreditava existir no interior da selva. O filme articula de forma superior o filme de aventuras, o biopic, o drama familiar e o filme histórico. E aborda temas como o feminismo, os preconceitos de classe da sociedade britânica, a ambição da glória pessoal, a tradição familiar, os preconceitos dos ocidentais em relação a outras civilizações, a ecologia, entre outros. O que é notável é que nada disto é imposto de forma desajustada que poderia tornar o filme pesado e aborrecido. O filme tem um fôlego narrativo que lembra os filmes de David Lean, que ninguém hoje tentar reproduzir. Para mim, é um dos melhores filmes do ano. Paris 4,5/5

Miss Sloane (John Madden, 2016)

A história de uma lobbista implacável, que é seduzida por um escritório rival daquele onde trabalha, para defender uma causa perdida à partida: impedir que o lobby pró-porte de arma ganhe terreno na legislação. O filme é interessante, mas nos pormenores do que está em discussão, é muito complexo, difícil de acompanhar. Jessica Chastain está perfeita. Paris 3/5

Working Girls (Dorothy Arzner, 1931)

Uma pensão de mulheres com um controlo apertado do seu comportamento fora e dentro da pensão. O único modo de escapar à vida vigiada da pensão, é casar, de preferência com um homem bem acima da sua condição. E é isso que duas irmãs vão conseguir, depois de algumas peripécias. Uma comédia ligeira do início do cinema sonoro. Paris 2,5/5

The Wild Party (Dorothy Arzner, 1929)

Numa universidade feminina, uma aluna rebelde (Clara Bow) apaixona-se pelo novo professor de antropologia (Fredric March). Este é o enredo amoroso do filme, que se ocupa sobretudo da vida estudantil e privada de um grupo de amigas, o que antecipa o subgénero do women picture que iria surgir anos mais tarde. O filme é famoso por ser o primeiro filme sonoro de Clara Bow (aliás o filme foi também exibido nas salas numa versão muda). Paris 2,5/5

Twilight Zone: The Movie (1983)

Quatro excelentes realizadores dos anos 80 assinam quatro histórias de ficção científica inspiradas pela série televisiva Twilight Zone. Gostei particularmente da última história, realizada por George Miller, sobre um voo acidentado e um passageiro com uma crise aguda de pânico. Um filme representativo do cinema de FC dos anos 80. Os outros realizadores são Steven Spielberg, John Landis e Joe Dante. Paris 3/5

Merrily We Go to Hell (Dorothy Arzner, 1932)

Antes do ciclo da Cinémathèque dedicado a Dorothy Arzner, nunca tinha ouvido falar desta importante realizadora que trabalhou para os estúdios de Hollywood nos anos 20 e 30. Portanto, é o primeiro filme que vejo dela e fiquei de imediato conquistado. Merrily We Go to Hell é uma comédia dramática sobre um grande amor entre um jornalista, e dramaturgo frustrado (Fredric March), e a herdeira de um grande industrial (Sylvia Sidney). O casamento deles atravessa tempestades (alcoolismo, infidelidades, adultério consentido) mas chega a bom porto. Uma bela história de amor, sublimada por grandes atores. Paris 3,5/5

Going to Brazil (Patrick Mille, 2016)

Uma comédia francesa que segue o modelo americano de Hangover mas que fica longe de ser uma cópia deslavada do original. O que me levou a ver o filme foi obviamente o Brasil. Na verdade o filme passa-se inteiramente neste país, salvo a introdução em território francês. Três amigas francesas viajam para o Rio para assistir ao casamento de uma amiga que tempos antes fora para o Brasil e por lá ficara sem dar notícias. As jovens chegam ao Rio e logo participam de uma festa, onde uma delas acaba por matar um rapaz que fazia a sua despedida de solteiro: era o noivo da amiga delas. A partir daí o filme aumenta de velocidade e os clichés sobre o Brasil atropelam-se (corrupção, violência, favela, bundas, sexo). Como se trata de uma comédia desbragada, ninguém leva a mal tamanha redução de um povo a atributos e realidades bárbaros. No fundo, filme é muito divertido, as atrizes são ótimas (fazem lembrar as spring breakers de Korine) e há personagens secundárias formidáveis (os funcionários franceses do Rio). Paris 3,5/5

Carmen (George Bizet)

Se a memória não me falha, vi Carmen em cena uma única vez (no Coliseu do Porto em 1998). Pela mesma altura Bieito Calixto preparava a encenação da produção que pude ver há dias. Ouvi falar muito mal desta encenação, que mesmo assim continua a ser apresentada depois de tantos anos após a sua criação. Achei-a bem interessante, moderna, e perfeitamente legível. Quanto aos cantores, a estrela da noite foi Roberto Alagna, que cantou muito bem, mas pouco melhor que as protagonistas que encarnavam Carmen e Micaela. Paris 4/5